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Escutar e Jejuar:

Quaresma como Tempo de Conversão, diz PP Leão XIV

Escutar e Jejuar:
Escutar e Jejuar: (Foto: Reprodução)

Por Douglas Fusco Lima

Um tempo favorável
A Quaresma é um dos tempos litúrgicos mais significativos da Igreja Católica. Durante quarenta dias, os fiéis são convidados a percorrer um caminho de conversão, preparando-se para celebrar a Páscoa do Senhor. Não se trata apenas de uma tradição ou de um período marcado por práticas externas, mas de um verdadeiro itinerário espiritual que recoloca Deus no centro da vida.
Na mensagem para a Quaresma de 2026, publicada no Vaticano na memória de Santa Ágata, o Papa Leão XIV destacou dois elementos fundamentais desse caminho: a escuta da Palavra e o jejum. Ambos são apresentados como atitudes complementares que conduzem à verdadeira transformação interior.


Escutar: abrir espaço para Deus
A mensagem papal começa enfatizando a importância da escuta. Segundo o Santo Padre, a disponibilidade para ouvir é o primeiro sinal de quem deseja entrar em relação com o outro — e, sobretudo, com Deus.
A Sagrada Escritura mostra que o próprio Senhor é um Deus que escuta. No livro do Êxodo, Deus declara a Moisés: “Eu bem vi a opressão do meu povo […] e ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). A escuta divina não é passiva; ela dá início a uma história de libertação. Deus ouve e age.
Aplicada à vida cristã, essa atitude significa acolher a Palavra proclamada na liturgia, meditar as Escrituras e permitir que elas iluminem a realidade concreta. Em meio às muitas vozes que disputam a atenção do homem contemporâneo — redes sociais, debates políticos, informações constantes — a Palavra de Deus educa para discernir aquilo que realmente importa.
Escutar, portanto, não é apenas ouvir sons ou ler textos sagrados. É assumir uma postura interior de docilidade, permitindo que Deus instrua a consciência. A mensagem ressalta que essa escuta inclui também o reconhecimento do “clamor dos pobres”, que interpela a Igreja e a sociedade. A Palavra não afasta da realidade; ao contrário, torna o fiel mais sensível às injustiças e sofrimentos do mundo.


Jejuar: disciplina e liberdade interior
O segundo eixo da reflexão quaresmal é o jejum. Tradicional prática ascética da Igreja, o jejum não se limita à abstinência de alimentos, mas envolve uma pedagogia espiritual mais ampla.
Ao restringir voluntariamente algo que é legítimo e necessário, o fiel aprende a ordenar seus desejos. O corpo participa da conversão, recordando que nem toda fome é apenas material. Existe também fome de justiça, de verdade e de Deus.
Inspirando-se em Santo Agostinho, o Papa recorda que, nesta vida, o homem experimenta fome e sede de justiça, enquanto a plena saciedade pertence à eternidade. O jejum, nesse sentido, dilata o coração e aumenta a capacidade de desejar o bem supremo.
Contudo, a autenticidade do jejum depende da humildade. Ele não pode transformar-se em motivo de orgulho ou aparência religiosa. Como ensina o Evangelho, deve ser vivido com discrição e sinceridade. Além disso, precisa estar enraizado na Palavra de Deus: não basta deixar de comer; é necessário alimentar-se espiritualmente.
A mensagem propõe também uma forma concreta e atual de abstinência: o jejum das palavras que ferem. Em uma sociedade marcada por discursos agressivos, julgamentos precipitados e ofensas — especialmente no ambiente digital — o Papa convida os fiéis a desarmar a linguagem. Renunciar à calúnia, ao falar mal do ausente e ao tom ofensivo torna-se um gesto concreto de conversão.


Uma dimensão comunitária
A Quaresma não é um caminho isolado. A Escritura recorda momentos em que o povo de Deus se reuniu para escutar a Lei, jejuar e renovar a aliança. A conversão possui sempre uma dimensão comunitária.
Paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamados a viver juntos esse tempo de graça. A escuta da Palavra e o jejum tornam-se experiências partilhadas, fortalecendo a comunhão e promovendo um verdadeiro espírito de reconciliação.
A conversão, segundo a mensagem, não se limita à consciência individual. Ela atinge o estilo das relações, a qualidade do diálogo e a forma como as comunidades se deixam interpelar pelos desafios do mundo contemporâneo. Trata-se de rever atitudes, prioridades e estruturas que podem obscurecer o testemunho cristão.


Rumo à civilização do amor
Ao concluir a mensagem, o Papa pede a graça de uma Quaresma que torne os ouvidos mais atentos a Deus e aos “últimos”. Escutar e jejuar não são práticas isoladas, mas caminhos que conduzem à construção da civilização do amor.
A escuta abre o coração; o jejum purifica os desejos; ambos conduzem a uma vida mais coerente com o Evangelho. Ao reduzir palavras ofensivas e ampliar o espaço para a esperança e a paz, os cristãos tornam-se instrumentos de reconciliação.
Assim, a Quaresma apresenta-se como um tempo favorável para redescobrir o essencial. Em meio às distrações do cotidiano, ela recorda que a fé se fortalece quando Deus ocupa o centro da existência. Escutar a sua Palavra e jejuar com autenticidade são passos concretos rumo à Páscoa — não apenas como celebração litúrgica, mas como renovação profunda do coração.

Leia a mensagem do PP Leão XIV na integra