Dom Fernando Rifan:
fala sobre a Campanha da Fraternidade 2026
24/02/2026 19:21
| Atualizado há 1 mês atrás
Por Douglas Fusco de Lima
Na última terça-feira, dia 24 de fevereiro de 2026, Dom Fernando Rifan, Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, apresentou uma reflexão clara e equilibrada sobre a Campanha da Fraternidade 2026. Inserida no contexto da Quaresma, a iniciativa é descrita pelo bispo como um instrumento pastoral que auxilia os fiéis a viverem com maior profundidade o espírito quaresmal de conversão, oração e caridade.
A Campanha da Fraternidade como instrumento quaresmal
Segundo Dom Fernando, a Igreja no Brasil, ao incentivar os exercícios espirituais próprios da Quaresma, convida também a um gesto concreto na área social por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), responsável pela organização anual da Campanha da Fraternidade. Ele recorda que a proposta da campanha não substitui as práticas espirituais tradicionais, mas as complementa.
A oração, o jejum e a esmola permanecem como pilares fundamentais do caminho quaresmal. A ação social sugerida pela campanha não ocupa o lugar das obras espirituais e caritativas, nem as suplanta. Trata-se, antes, de uma extensão concreta da vivência interior, um desdobramento prático da conversão do coração.
Dom Fernando descreve a Campanha da Fraternidade como um grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal. Conversão, renovação interior e vida em comunhão são apresentados como eixos centrais, sempre orientados para a preparação da Páscoa.
Tema 2026: “Fraternidade e Moradia”
O tema escolhido para 2026 é “Fraternidade e Moradia”, com o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A inspiração bíblica remete ao prólogo do Evangelho segundo Evangelho segundo Sao Joao, onde se proclama que o Verbo se fez carne e habitou entre nós.
O bispo destaca que o lema recorda a encarnação de Cristo como expressão máxima da proximidade de Deus com a humanidade. O Filho de Deus não permaneceu distante, mas assumiu a condição humana e veio habitar entre os homens. A moradia, portanto, não é apenas uma questão estrutural ou urbanística, mas carrega profundo significado teológico e humano.
Refletir sobre o direito à moradia digna, conforme a proposta da campanha, é contemplar o valor da pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus. A casa aparece como espaço de proteção, convivência familiar e desenvolvimento integral. Ao abordar esse tema, a Igreja convida os fiéis a enxergar no próximo — especialmente nos mais necessitados — o próprio Cristo.
Conversão e compromisso social
Dom Fernando explica que a Campanha da Fraternidade tem como finalidade unir as exigências da conversão e da oração com um projeto social concreto. Não se trata de ativismo isolado, mas de expressão da fé vivida.
A campanha propõe uma renovação da vida da Igreja e um impulso para a transformação da sociedade, sempre a partir de temas específicos analisados sob a visão cristã. A participação nos sofrimentos de Cristo é destacada como dimensão essencial dessa proposta. Ver Cristo na pessoa do próximo, sobretudo nos mais pobres, é atitude que brota da espiritualidade quaresmal.
A descrição apresentada pelo bispo reforça que a dimensão social da fé não pode ser desvinculada da vida espiritual. O amor ao próximo nasce da experiência do amor de Deus. Assim, o compromisso com questões sociais, como a moradia, não é ideológico, mas consequência da caridade cristã.
Risco de instrumentalizações ideológicas
Em sua reflexão, Dom Fernando também menciona que, como pode acontecer, os temas da Campanha da Fraternidade às vezes são utilizados para tratar de política com viés socialista ou revolucionário. Essa possibilidade pode gerar interpretações equivocadas sobre a identidade e a missão da Igreja.
Ele recorda a máxima latina “Abusus non tollit usum” — o abuso não impede o uso. Ou seja, o fato de alguns eventualmente utilizarem um tema de forma inadequada não anula o valor legítimo da proposta em si.
Para esclarecer a posição da Igreja, o bispo cita a encíclica Deus caritas est, do Papa Bento XVI, especialmente o número 28. Nesse trecho, o Papa afirma que a Igreja não pode nem deve assumir a batalha política em lugar do Estado, nem substituir-se a ele. Ao mesmo tempo, não pode permanecer à margem da luta pela justiça.
A atuação da Igreja se dá pela via da argumentação racional e pelo despertar das forças espirituais, sem as quais a justiça não pode consolidar-se. Trata-se de uma presença moral e formativa, não partidária.
Fraternidade que nasce da fé
A descrição feita por Dom Fernando Rifan apresenta a Campanha da Fraternidade 2026 como expressão da espiritualidade quaresmal aplicada à realidade concreta. O tema da moradia é compreendido à luz da encarnação de Cristo, fundamento da dignidade humana.
A proposta une oração, conversão e compromisso social, mantendo clara a distinção entre missão espiritual da Igreja e atuação político-partidária. A fraternidade, nesse contexto, é vista como fruto da fé e da caridade, não como projeto ideológico.
Ao convidar os fiéis a refletirem sobre “Fraternidade e Moradia”, a Igreja no Brasil reafirma que a vivência cristã envolve tanto o encontro pessoal com Deus quanto a responsabilidade concreta para com o próximo. Preparar-se para a Páscoa, segundo essa perspectiva, é permitir que a graça transforme o coração e se traduza em gestos concretos de amor e justiça.
